quarta-feira, 1 de outubro de 2008

SILVIA VINHAS ENTREVISTA MARCELO SEMER SOBRE "CERTAS CANÇÕES"

A jornalista Silvia Vinhas entrevista Marcelo Semer sobre o romance CERTAS CANÇÕES, para o programa Opinião Livre da TV Unip.

Como nasceu o livro, o ambiente dos anos 80, a ligação dos jovens com a política, as músicas que formaram uma geração.

Acompanhe a entrevista

ENTREVISTA SILVIA VINHAS -CONTINUAÇÃO

Continuação da entrevista concedida por Marcelo Semer à jornalista Silvia Vinhas, no programa Opinião Livre (TV Unip), sobre o romance CERTAS CANÇÕES:


Entrevista - 2ª parte

ENTREVISTA SILVIA VINHAS - 3ª PARTE

Segue a terceira e última parte da entrevista concedida por Marcelo Semer à jornalista Silvia Vinhas, no programa Opinião Livre (TV Unip), sobre o romance CERTAS CANÇÕES:

Entrevista 3ª parte

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

LETRAS E LEITURAS ENTREVISTA MARCELO SEMER

A jornalista Mona Dorf entrevista Marcelo Semer sobre Certas Canções e gostos literários, para o programa Letras e Leituras, da Rádio Eldorado AM.

Ouça a entrevista

Ou leia seus principais trechos:

Marcelo, como um autor de livros e artigos jurídicos, tão específicos foi parar na ficção? Fale-me do seu livro: Certas Canções...

Embora tenha feito carreira na área jurídica, como advogado e juiz; sempre tive o sonho de escrever ficção, acho que até pelo intenso relacionamento com a literatura desde pequeno. A vontade de escrever é anterior ao direito - e de alguma forma esteve presente na minha formação, pois trabalhei no jornalismo e cursei Letras. Certas Canções é um diário político-sentimental de um estudante nos anos 80, entremeado de versos da MPB e do rock nacional. É um mergulho na lembrança de uma época muito importante da história recente - o reencontro do país com a esperança e a cidadania, com o movimento das Diretas-Já; e, depois, com a frustração. É também um romance de formação de jovens, tomando contato com as sutis diferenças entre amizade e amor.

No livro você retrata a geração herdeira de 68, ou seja, que nasceu nos anos 60 e viveu depois nos 80 um rescaldo, sonhos desiludidos com eleições diretas frustradas, mas o legal é que o fio condutor acaba sendo algumas letras que pautavam a agenda política, e o que virou a nossa história. Que tal comentar algumas músicas? Você gosta de alguma letra em especial?

O livro começa no show do Milton Nascimento no Ginásio do Ibirapuera que antecedeu a passeata das diretas, onde cantávamos Coração de Estudante, com a qual, mais tarde, iríamos enterrar Tancredo Neves e boa parte das nossas esperanças. Eu busquei músicas que ainda serviam de referência para as mobilizações, como Chico Buarque em “Apesar de Você”, e “Vai Passar”, hino dos estertores do regime militar. Mas gosto muito de “Certas Canções”, que acabou dando título ao livro, porque expressa muito essa relação de proximidade com a MPB: todas as músicas que ouvíamos falavam da gente - são as canções que ouço, e como dizia Milton, que cabem tão dentro de mim.

Essas são as letras da sua infância e adolescência. E os livros, quais obras marcaram a sua trajetória?

Ler sempre foi e continua sendo minha maior diversão. Livros que me marcaram muito na adolescência foram O Estrangeiro de Albert Camus e Metamorfose, de Kafka, impactos de estranhamento diante do mundo. Depois, me apaixonei, pelo realismo mágico de García Márquez, com a saga de Macondo, e todos os livros que maravilhosamente iam se encaixando em Cem Anos de Solidão. Adulto, tomei contato com Saramago, uma prosa engajada, mas nem por isso menos poética, lírica, parece que nenhuma palavra está escrita ao acaso.

E depois como advogado e professor, você conseguiu continuar a ler literatura?

O direito é uma ciência essencialmente humana. Mas o seu ensino é muito ligado à técnica e as leis. E é muito comum que quando a gente começa a vida profissional, se dedique a tantos livros técnicos que se esquece de ler aqueles livros que justamente nos ensinam o humanismo. O estudante ou o profissional de direito deve estar atento a isto. Imprescindível ter contato com Os Miseráveis, de Victor Hugo, O Processo, de Kafka, ou Crime e Castigo, de Dostoiévski, tanto mais quem trabalha no direito penal como eu. A literatura nos ajuda a não perder a dimensão do humano.

As críticas do seu livro Certas Canções foram ótimas, isso te anima a escrever algum outro?

Fiquei surpreso e muito contente com as reações positivas a Certas Canções - já que é o meu primeiro romance. Percebi que ele tem empolgado muito as pessoas da minha geração, que se encontram nas páginas de Certas Canções, mas também aquelas que já eram adultas nos anos 80, e viram aqueles anos com olhos mais maduros. Até mesmo jovens que curtem uma nostalgia do que gostariam de ter conhecido. É lógico que isso me anima a continuar.


Veja no JOGO RÁPIDO os livros marcantes para Marcelo Semer citados no programa:

Livro de Cabeceira: Bocas do Tempo, de Eduardo Galeano, bom para cabeceira, para ler aos poucos e aos pedacinhos.

O que você está lendo no momento? Casei com um Comunista, de Philip Roth, sobre a época do macarthismo, uma ameaça sempre presente.

O que pretende ler? Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum, também uma mescla de ficção e memória.

Um título inesquecível: O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde.

Romance do Coração: O evangelho segundo Jesus Cristo de Saramago.

Literatura que conta: Aquela que te apaixona, que te faz viajar...

Livro que seu melhor amigo está lendo: Razão e sentimento de Jane Austen.

Um clássico brasileiro: Machado de Assis, ele mesmo, um produtor de vários clássicos.

Uma obra estrangeira fundamental: Em busca do tempo perdido, de Proust.

Poetas indispensáveis:Fernando Pessoa, Castro Alves e Pablo Neruda.

Texto ou livro ao qual você recorre na hora do apuro: Uma música tocante, que é também bela poesia: Como nossos pais, na voz de Elis. Um sinal de alerta. Sempre me comove.

Nota de Rodapé: “Mas se as derrotas do presente não eram suficientes, nós ainda perdíamos o futuro. Depois de anos dourados e anos rebeldes, parece que vivíamos os anos perdidos. Mas para nós que nos amávamos tanto, esses anos não foram tão inúteis assim. Nós perdemos muito. Mas nada perdemos com tanta dor e ao mesmo tempo prazer quanto a inocência”. (Certas Canções)

sábado, 26 de abril de 2008

Dizem por aí.....CERTAS CANÇÕES na Internet

Nota sobre CERTAS CANÇÕES, na estante do Blog do Germina Literatura


Crítica de CERTAS CANÇÕES, na Revista Eletrônica Aguarrás chama a atenção para a música no enredo: O que podia servir apenas como trilha sonora se mistura logo de cara com a vida dos personagens e ajuda a definir suas personalidades para o leitor e para o retrato da intensa vida política da época: Quem gosta de livros políticos lamberá os beiços e desfrutará com tudo de um saudosismo positivo (nada de besteirol anos 80 como pode induzir a orelha), que mostra um povo com capacidade de mudar seu destino. Leia Mais

sábado, 19 de abril de 2008

Crítica de CERTAS CANÇÕES, por Manoel da Costa Pinto, na Folha de S. Paulo

RODAPÉ LITERÁRIO
As ilusões perdidas

Romance de Marcelo Semer é retrato da geração que viveu as frustrações da redemocratização nos anos 80

MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA
"EU TINHA 20 anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida." A frase é do escritor francês Paul Nizan, autor de "Aden, Arábia".Caberia como epígrafe de "Certas Canções", de Marcelo Semer -romance de estréia cujo tema é a geração que, nascida em meados dos anos 60, viveu uma espécie de entressafra: o rescaldo das utopias contraculturais e os antecedentes do choque pragmático das eras Collor, FHC e Lula. Na verdade, a frase serviria para qualquer geração, todas fadadas a desiludir os sonhos de juventude. Mas esta, em particular, mal teve tempo de sonhar: entre a fracassada campanha pelas eleições diretas e o anticlímax da chegada de Sarney à presidência, foram apenas três anos. Nesse curto intervalo de tempo se passa a maior parte de "Certas Canções", tendo como eixo um triângulo amoroso formado pelo narrador e por um casal de amigos. Eles e os demais companheiros de universidade participam de comícios, passeatas, viagens a Visconde de Mauá e acalorados debates de boteco após sessões de cinema -mas logo percebem que o amadurecimento afetivo é o que resta quando os grandes impasses ideológicos não têm mais vez. Essa, aliás, é a tônica de um livro sem pretensões formais, que opta pelo registro do diário íntimo, pontuado por versos de canções que serviram de trilha sonora para os anos 80. Semer utiliza habilmente o recurso de inserir citações de MPB e do rock nacional de então no discurso de seu narrador -ora de maneira explícita ("caía a tarde feito um viaduto e nós fomos à praça da Sé", referência a "O Bêbado e o Equilibrista", de João Bosco), ora de forma velada ("igualzinho a nossos pais, já maduros e carecas...", a partir do refrão de "Como Nossos Pais", de Belchior). O levantamento das canções utilizadas por Semer fornece um curioso retrato do período. Da música popular, ficam letras distantes, por exemplo, dos experimentalismos da tropicália; e, do rock, o frescor ingênuo dos Paralamas do Sucesso e do Ultraje a Rigor (bem diferente das asperezas alucinógenas de Secos e Molhados ou Mutantes). Em dado momento, o narrador diz que outra personagem "nunca pretendeu ser uma metamorfose ambulante e era o avesso do avesso do avesso de um maluco beleza" -definição que vale para o conjunto dessa geração sem desbunde, mas que ainda não estava em casa, guardada por Deus, contando o vil metal. "Certas Canções" é delicioso para quem viveu em São Paulo na época, freqüentou danceterias como Radar Tantã ou espaços como Café Piu-Piu e Lira Paulistana para ver shows dos grupos Premeditando o Breque, Rumo e Língua de Trapo -até hoje nossa mais completa tradução.

CERTAS CANÇÕES
Autor: Marcelo Semer
Editora: 7 Letras
Quanto: R$ 29 (126 págs.)
Avaliação: bom

terça-feira, 8 de abril de 2008

ARCADAS E XI DE AGOSTO, PALCOS DA MEMÓRIA AFETIVA




Certas Canções tem várias sedes, como as viagens que os jovens faziam nos anos 80. Há canções no Rio de Janeiro, em São Tomé das Letras, na Ilha do Mel, em Fortaleza, etc. Mas é ambientado na Faculdade de Direito do Largo São Francisco e no Centro Acadêmico XI de Agosto. Era onde tinham aulas e de onde partiam para passeatas, penduras ou peruadas.

Leia um pouco sobre a Faculdade e o XI em “Certas Canções”

Um bom sinal foi uma manifestação pela volta da democracia diante do Largo São Francisco, dissolvida à base de gás lacrimogêneo e bombas de efeito imoral. Uma
correria que parecia abrir uma pequena janela no tempo para mostrar a nós, alunos novos, como eram os dias de protesto da velha guarda. Houve feridos, houve revolta, e o Secretário de Segurança, irmão de um professor nosso, correu à faculdade para se explicar. O secretário subiu na escada central do térreo, que lhe serviu de púlpito, emoldurado pelos belíssimos vitrais do átrio. Lá mesmo, onde o Carvalhosa mais tarde faria um emocionado e ovacionado discurso de despedida após sair derrotado, segundo se dizia, por questões políticas, em uma disputa para professor titular. O secretário chegou sem avisar e, mesmo assim, logo após já estava cercado por uma centena de estudantes que se amontoavam no térreo com cara de poucos amigos.

CAÍA A TARDE FEITO VIADUTO e nós fomos à Praça da Sé. Um grupo de vinte ou trinta estudantes que haviam passado o dia no XI de Agosto em vigília cívica. Cívica e líquida. Depois de já estarmos calibrados, com um tanto de pinga, outro tanto de cerveja, seguimos em romaria à nossa Sé. Para acompanhar ao vivo a votação das diretas. Ao vivo, naquele dia, queria dizer que alguém estava ouvindo pelo rádio e afixando pequenas plaquetas de sim e não no imenso outdoor levantado na praça, com o nome de todos os deputados. Sim, porque o governo, o Congresso, os militares, eles enfim, não permitiram que aquela histórica sessão fosse transmitida pela televisão.
Nós devíamos ter imaginado que, se eles queriam ficar tão escondidos, alguma coisa não estava cheirando bem. Mas éramos estudantes, jovens e otimistas, e a esperança de que pudéssemos fazer diferença não nos permitia imaginar que a noite é que ia nos cair como um viaduto. E que logo mais seríamos nós mesmos os bêbados trajando luto.